DERROTAR O GOLPE EM SÃO PAULO

O imaginário a ser mobilizado nesta eleição não deve apelar a um “sentimento paulista” oligárquico, e sim a um “sentimento classista” capaz de gerar consciência política

Por Rodrigo Cesar, historiador e integra o diretório estadual do PT-SP

No Estado de São Paulo se encontra o maior polo industrial do país. O desenvolvimento da indústria paulista tem raízes na expansão cafeeira da segunda metade do século 19: a acumulação de capital proporcionada pela produção e comércio do café foi suficiente para que os latifundiários diversificassem seus investimentos e instalassem manufaturas e pequenas fábricas, seja para o beneficiamento e circulação do produto, seja para oferecer outros bens de consumo nos nascentes centros urbanos.
Portanto, a diferença fundamental entre os capitalistas paulistas e os capitalistas das demais unidades da federação é que o grau e o padrão de acumulação do capital em São Paulo, ao longo do século 20, permitiram à fração paulista melhores condições de exercer papel dirigente do conjunto da classe capitalista brasileira, dando origem à autoconstrução de sua imagem como a “locomotiva” do país, para quem as outras partes do “trem” não passariam de um peso a ser arrastado…
Esta é a base material da disputa histórica entre os capitalistas de diferentes regiões para exercer sua influência sobre o Estado visando o atendimento de suas necessidades particulares, ao passo que, inversamente, esta disputa incidia sobre o desenvolvimento daquela base material.
Assim, a histórica hegemonia dos capitalistas de São Paulo sobre a definição de rumos do padrão de desenvolvimento do país esteve fortemente ancorada no apoio do aparato estatal para o latifúndio cafeicultor desde as últimas décadas do século 19, assim como para a indústria paulista de transformação desde o início do século 20.
Neste sentido, quando grandes empresas transnacionais da indústria automobilística pretendiam instalar fábricas no Brasil durante a Ditadura Militar, foi em São Paulo que encontraram melhores condições, tanto em função da infraestrutura logística já instalada e do enorme contingente de força de trabalho já concentrada, quanto do apoio estatal para a iniciativa.
Não por acaso, portanto, a região metropolitana tem sido palco de lutas políticas e sociais de grande envergadura, da greve geral de 1917 às greves metalúrgicas de 1978 a 1980. Afinal, a concentração do desenvolvimento industrial aqui gerou não apenas uma forte classe capitalista como também o seu contrário: um numeroso operariado, cujo potencial de organização, mobilização e combatividade foi forjado como contraponto à conciliação de classes do sindicalismo pelego atrelado à Ditadura Militar.
Resistência popular
O movimento metalúrgico do ABC contribuiu para desencadear e se somou a um intenso processo de organização do conjunto da classe trabalhadora em todo o país, que gestou seu principal instrumento de luta e sua principal liderança: o PT e Lula, que hoje são os alvos preferenciais dos ataques golpistas para reduzir a capacidade de resistência popular à retirada de direitos e ao aumento da exploração dos trabalhadores e trabalhadoras.
Os capitalistas brasileiros em geral, e principalmente os capitalistas paulistas, não brincam em serviço: o grau de radicalidade nas diferentes dimensões de seu programa demonstra que não estão dispostos a recuar no seu objetivo estratégico de intensificar o padrão de exploração da classe trabalhadora e construir uma saída pactuada para a atual crise política, econômica e social.
Portanto, se existe algum “sentimento paulista”, ele não serve aos propósitos de derrotar o golpe. Ao contrário, o imaginário historicamente construído de que São Paulo tem uma vocação dirigente nacional a ser exercida e reivindicada serve tão somente aos interesses dos capitalistas paulistas, seja na luta contra os trabalhadores e trabalhadoras paulistas, seja na disputa com os capitalistas dos demais estados.
Em São Paulo, na luta para termos Lula livre, candidato e presidente, o imaginário a ser mobilizado nestes tempos de guerra não deve ser aquele que escamoteia a luta de classes e apela para um “sentimento paulista” que pode ser partilhado tanto por explorados como por exploradores.
O caminho é outro: a reaproximação do PT com a classe trabalhadora paulista do campo e da cidade, contribuindo com sua organização e mobilização para defender direitos, eleger Lula presidente e Luiz Marinho governador, exige mobilizar um “sentimento classista” capaz de gerar consciência política e desmascarar o capitalista que se diz trabalhador.

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