O PSDB E SUA HERANÇA MESQUINHA

Nos 24 anos em que governaram o Estado de SP, os tucanos estiveram a serviço do grande capital. Povo foi tratado com desprezo e repressão

Por Luis Sérgio Canário, engenheiro e militante do PT

A situação atual do Estado de São Paulo é um reflexo das políticas do PSDB. Desde a redemocratização somente dois governadores não foram desse partido: Orestes Quércia e Luiz Fleury, ambos do PMDB. Franco Montoro, apesar de eleito pelo PMDB, foi um dos fundadores do PSDB. São sete mandatos ao todo, em um total de nove após a redemocratização, sendo seis consecutivos.
Ao final de 2018 serão 24 anos consecutivos de gestões do PSDB! Ressalvados breves intervalos em função de Cláudio Lembo (PFL) e agora Márcio França (PSB) assumirem o governo estadual em função da desincompatibilização do governador (que, em ambos os casos, era Geraldo Alckmin, deixando o cargo para disputar eleições presidenciais). Não há paralelo na história do Estado. Nem Arena e PDS ficaram tanto tempo no governo.
Mas ainda há outro dado significativo: o tempo do próprio Alckmin à frente do governo estadual. Só há paralelo com os donatários das capitanias hereditárias nos séculos XVI e XVII. Dos seis mandatos consecutivos, três foram dele! E mais uma parte do segundo mandato de Mário Covas, de quem era o vice.
Se São Paulo é uma “capitania” do PSDB, Geraldo Alckmin é o seu “donatário”. E essa é sua marca no Estado. Uma marca forte que irá perdurar por algum tempo. Infelizmente hoje São Paulo tem a cara e o jeito reacionário e hipócrita de Alckmin (seguidor da seita católica “Opus Dei”, de extrema-direita), apoiador da violência policial, inimigo dos gastos sociais, mas sempre generoso com os capitalistas, basta ver as isenções fiscais que concedeu e os contratos firmados com as grandes empreiteiras.
“Capitania”
O Estado de São Paulo vem sendo tratado pelo PSDB como uma capitania, como nos tempos em que o Brasil era colônia de Portugal. O partido acha-se no direito de fazer o que bem entende, sem nenhuma consideração além do bem-estar dos ricos e poderosos e do seu projeto de poder. Tudo isso tendo à frente um personagem de pouca expressão e quase nenhuma empatia, mas que, com o passar dos anos, assumiu grande poder político. Apesar disso, sempre conduziu o Estado como uma província menor, e não como a maior economia do país (e que, se fosse um país, teria o segundo ou terceiro Produto Interno Bruto-PIB da América Latina).
Hoje, embora seja o presidente nacional do PSDB, Alckmin continua com a mesma visão de política e de como conduzir o partido que devia ter nos seus tempos de prefeito de Pindamonhangaba. Nenhum demérito para “Pinda”, uma bela cidade do interior paulista. Mas as questões colocadas para o governador de São Paulo são, ou deveriam ser, significativamente maiores e mais complexos.
Mas que marca é essa, que o PSDB e Alckmin deixam como legado para São Paulo após todos esses anos? De cara, um candidato a governador que bem expressa o antagonismo do PSDB às reivindicações da maior parte da população paulista: João Dória, o “Gestor”. Uma invenção de Alckmin, Dória passou como um meteoro pela Prefeitura de São Paulo, deixando um rastro de perversidades e de ações de marketing de segunda categoria. É esse personagem fake que o PSDB quer ver como governador de um dos principais Estados do país!
São Paulo, o Estado, segue sendo o maior PIB do país, e o maior contingente populacional, com mais de 45 milhões de habitantes. Cerca de 30% de toda a riqueza produzida no Brasil são gerados em São Paulo, que continua sendo o maior pólo industrial do país. Aqui estão importantes universidades públicas do país e da América Latina: USP, Unesp e Unicamp (estaduais), Unifesp, UFABC e UFSCar (federais). Aqui está o maior porto brasileiro e da América do Sul, o Porto de Santos, que movimenta duas vezes mais carga que o segundo colocado, Itaguaí, no Rio de Janeiro. Aqui está o centro do mercado financeiro nacional e a sede de uma das principais bolsas de valores das Américas, que agora se chama B3. Também pode ser considerado um enorme centro de produção intelectual, cultural e artística.
Toda esta grandeza e complexidade é tratada de modo irresponsável pelos gestores tucanos. Obras do Metrô paulistano e da rede de trens urbanos arrastam-se há anos, enquanto a população da capital e da região metropolitana se espreme em trens que já não atendem mais a demanda. Estações são inauguradas a toque de caixa e inacabadas a cada novo fim de mandato para tentar conquistar votos. Uma das maiores cidades do mundo deixa de ter um sistema de transporte de massa adequado às suas necessidades. As pessoas têm que escolher entre andar espremidas nos trens ou utilizar ônibus que trafegam lotados e à incrível velocidade média de 20 quilômetros por hora!
Abandono
Uma das táticas dos tucanos tem sido a de privatizar e entregar para a iniciativa privada esse serviço público essencial, participando dos investimentos necessários e ainda subsidiando o valor da tarifa para manter altas as taxas de retorno dos capitalistas que operam os sistemas de transporte. A Linha Amarela do Metrô é o maior exemplo dessa modalidade.
Quando se olha para a educação também se vê o dedo do descaso e do abandono. Um excelente trabalho encomendado pela Apeoesp em 2016 mostra a redução real dos gastos com a rede estadual de ensino, apesar de nominalmente crescerem, o que serviu de propaganda para o governo do PSDB dizer que está aumentando. Quando se desconta a inflação, porém, se vê que o montante dos gastos na verdade vem caindo ano a ano. Além disso ainda há todo tipo de corrupção, como pode ser visto no caso da merenda escolar, que envolve um tucano graúdo, o deputado Fernando Capez.
Os professores são mal remunerados, o que os leva a paralisações para tentar recuperar o poder de compra dos seus salários. Também na pauta de reinvindicações a melhoria das condições de trabalho nas salas de aula superlotadas, e o fim das intervenções desastrosas, como o fechamento de várias escolas (leia texto na p. 10). O que aponta no horizonte é mais uma vez a tática de sucatear para tentar encaixar o discurso de que o Estado é inepto e que a solução é entregar a gestão do ensino para a iniciativa privada. Isso em um mercado privado já altamente concentrado, nas mãos de dois ou três grandes grupos internacionais.
O Estado mais rico do país possui enorme população de crianças e jovens, que deveriam ser contempladas com uma educação exemplar, que lhes preparasse como seres humanos e como pessoas com capacidade de produzir e de intervir na sociedade, mas estão recebendo apenas algum verniz de conteúdo, sendo preparados como “mão de obra” barata. Jovens que irão disputar empregos má qualidade ou cair no mercado de trabalho informal, com subempregos sem nenhuma proteção social e legal. Essa é a grande herança tucana deixada para a população paulista.
Outro exemplo: São Paulo tem a maior e melhor malha rodoviária do país. São 35.000 quilômetros de estradas pavimentadas, sendo 22.000 quilômetros de estradas estaduais. Desses, 7.500 quilômetros são concessões, ou seja: paga-se pedágio para trafegar. E desses, 4.300 quilômetros são de estradas duplicadas, as mais rentáveis para os consórcios de grandes empreiteiras que detêm as concessões dos pedágios.
Pedágios caros
São 452 quilômetros de São Paulo a São José do Rio Preto, uma viagem que custa R$ 86,10 somente em pedágios. Ida e volta custam R$ 172,20! Esse é o preço da privatização. Uma brutal transferência de dinheiro dos usuários de estradas para os consórcios que na maioria das vezes investem muito pouco, tendo encontrando estradas prontas e de alta qualidade, como a Rodovia dos Imigrantes, na qual o pedágio custa R$ 25,60 em cada direção. Ir à praia de carro custa R$ 51,20 de pedágio! Enquanto isso, uma viagem de São Paulo a Belo Horizonte, com seus 586 quilômetros, por uma rodovia federal, a Fernão Dias, custa apenas R$ 18,40 (ou R$ 36,80 ida e volta). Por quê?
Enquanto as concessões federais foram vendidas pelo menor valor do pedágio, as concessões estaduais foram vendidas a quem pagasse o maior valor pela concessão (e, portanto, iria cobrar a maior tarifa de pedágio para cobrir o investimento)! Onde está a lógica? Essa é a estratégia de privatização do PSDB: não é usar a iniciativa privada para oferecer melhores serviços por preços razoáveis, mas privatizar para transferir verbas públicas para o capital financeiro, via pagamento da dívida pública, ou para o setor das grandes empreiteiras.
Esses são alguns dos aspectos que se pode comentar aqui. Seriam necessárias páginas e páginas para falar do completo descaso com a saúde da população, que sofre com a privatização da gestão de hospitais e unidades de saúde (entregue a fundações privadas e às “organizações sociais de saúde”, privadas), com postos de saúde dotados de pouca ou nenhuma infraestrutura e insuficiência de materiais ou remédios que os médicos e demais profissionais de saúde possam utilizar: a vida dos trabalhadores e do povo é tratada com a mais completa indiferença.
Esse é o legado de quase um quarto de século, tempo em que o PSDB e Alckmin vêm exercendo o governo estadual e controlam São Paulo como sua “capitania hereditária”.

Deixe uma resposta

Fechar Menu