Página 13. Fale um pouco da sua trajetória pessoal: infância, família, influências.
Ana Lídia. Nasci em 1988, no mesmo ano em que foi promulgada a nossa última Constituição. Filha de pais operários que enfrentaram todas as dificuldades para criar os filhos, em meio aos anos neoliberais do governo Fernando Henrique Cardoso. Meu pai ficou desempregado duas vezes nos anos 1990 e tínhamos que buscar a melhor maneira para conseguir superar as dificuldades financeiras. Nossa vida era bem calculada: onde se podia gastar, o quanto e com o quê.
Durante toda minha infância e adolescência via como referência de melhoria de vida as lutas sociais, principalmente no PT. Lembro dos comícios e campanhas nas quais minha mãe me levava ainda quando criança. Embora não entendesse bem do que se tratava toda aquela “festa”, porque para mim era diversão, sabia que de alguma maneira tudo aquilo estaria relacionado à melhoria de nossas vidas.
Sempre tive como referência minha família, sobretudo a família da minha mãe, sempre pronta para uma bela briga social. Mesmo sendo uma família de poucos recursos, sempre tiveram a compreensão de que as dificuldades que sofriam estavam relacionadas às desigualdades sociais históricas do país. Então, desde muito cedo fui inserida no mundo da política.
Outra memória que guardo é a eleição do Lula em 2002, na época eu tinha 14 anos. Lembro que fui para a Praça Kennedy na minha cidade natal, São José dos Campos, acompanhar a apuração e assim que saiu o resultado eu vi muito choro de emoção e abraços muito fraternais. E percebi ali que a vitória do candidato do PT à Presidência da República era muito mais que aquele homem barbudo que deu nome às minhas bonecas de infância. Sim, minhas bonecas se chamavam “Lula”! Aquela alegria representava uma conquista, fruto de muita luta, e que viria a mudar a vida de muita gente.
Pouco tempo depois, em 2007, ingressei numa universidade pública federal criada por Lula e pelo PT e isso não foi pouca coisa. Foi o ingresso na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que mudou minha história. Fui fazer Ciências Sociais e por meio da universidade eu percebi que a educação ajuda a transformar a sociedade. Saí de São José dos Campos, que há doze anos vinha sendo gerida pelo PSDB, e fui morar na segunda maior periferia do Estado, em Guarulhos, cidade administrada pelo PT, e pude sentir mais ainda que era um governo de trabalhadores para trabalhadores.
Foram os governos e as políticas do PT que permitiram que eu e milhares de jovens da classe trabalhadora pudessem ingressar na faculdade. Graças aos governos do PT de Lula e Dilma eu me tornei professora e hoje, além de dar aula que é um dos prazeres de minha vida, também faço doutorado em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP).

Página 13. Quando e como você se filiou ao PT? Por quê?
Ana Lídia. Eu me filiei ao PT em 2008, já são dez anos de partido. O que me levou a filiar ao PT foi entender como todas as políticas do governo Lula e do PT estavam impactando positivamente a minha vida e na qualidade de vida do povo brasileiro. Também entendo que muito ainda tinha por fazer e que é por meio do PT que será possível promover as transformações profundas nas estruturais desiguais, violentas, opressoras, machistas, racistas e LGBTfóbicas da sociedade brasileira. O PT é o único partido com vida real no seio da classe trabalhadora e que permitirá conduzir o Brasil rumo ao socialismo.

Página 13. A partir de que momento você percebeu a importância da questão do feminismo e da luta das mulheres?
Ana Lídia. Foi desde muito cedo, dentro de casa primeiro. Tanto o meu pai quanto a minha mãe trabalharam toda a vida fora de casa, e mesmo quando chegavam exaustos do trabalho, era sempre minha mãe que ia para o fogão fazer a janta e lavar a louça. Além disso, sempre houve uma clara diferença entre meu irmão e eu, ele sempre teve mais liberdade, assim como também não contribuía com as tarefas em casa, diferente de mim. Conforme eu fui crescendo, fui entendendo ainda mais o que significava o machismo da nossa sociedade, que ia desde ditar as nossas regras de comportamento (porque não era “coisa de menina” ter quarto bagunçado e muito menos sair sozinha), passando pelas roupas que vestimos (porque eu ando “desleixada”, e porque “podia passar um batom e colocar um salto”) até a difícil aceitação de nosso corpo fora dos “padrões” consideráveis aceitáveis.
Já adolescente e na minha primeira fase de adulta eu me incomodava e, obviamente, ainda me incomodo na rua quando passo por situações de assédio, seja com palavras, seja com gestos e até mesmo com ações. Hoje, enfrento o machismo dentro da sala de aula, quando alunos mais velhos não entendem que por ser jovem e mulher eu também posso ser professora e não uma “paquera” qualquer.
Mas o que mais me fez entender a importância do feminismo na minha vida foi o convívio com diversas mulheres que passaram por situações de violências e abusos de uma maneira que eu jamais poderia entender até então. Eu estudava muito o que era o machismo em nossa sociedade e como os movimentos feministas construíam suas lutas para mudar nossa condição de desigualdade perante os homens, mas nada disso me fez despertar mais do que as experiências das mulheres com que passei a conviver, desde aquelas que foram despedidas por terem engravidado até as que passaram por situações de violência doméstica ou de estupros em casa, na balada e na rua.
A atuação das mulheres no partido e nos movimentos também não está isenta de sofrer machismo. É constante as mulheres serem escanteadas nas tomadas de decisões políticas e inúmeras candidaturas de mulheres “laranja” (isto é, apenas para completar cotas para inscrição de chapas, em vez de serem candidaturas para valer).
Enquanto na sociedade representamos mais da metade da população, no Congresso Nacional ocupamos apenas 8% das cadeiras. Isso significa que as leis produzidas em nosso país são feitas por homens e para homens, sem compreender a dinâmica da vida das mulheres que ainda recebem menos que homens, que têm o Estado interferindo sobre os corpos quando tenta criminalizar o aborto ou mesmo não reconhecendo o trabalho doméstico como produtivo.
O feminismo é um instrumento de luta fundamental para superar a objetificação, a opressão, a desigualdade e a violência contra as mulheres, especialmente contra mulheres trabalhadoras. É por meio do feminismo, aliado às lutas do conjunto da classe trabalhadora, que buscaremos uma sociedade com mais igualdade de gênero e autonomia financeira, social, política, sobre nosso corpo. Trata-se de ampliar a participação feminina e qualificar o debate político em que as mulheres são parte fundamental.

Página 13. Como professora da rede pública estadual, como você avalia a percepção da juventude sobre a situação política do país, em especial o desemprego?
Ana Lídia. Vejo a relação de parcela significativa da juventude muito conflituosa com a política. Parte importante dos jovens não olha para a política como saída para os seus dilemas da vida. Isso porque muitas vezes a política aparece na vida deles por meio do Estado, de uma forma muito opressiva. Seja através da escola e seu modelo falido de educação, enclausurador, seja por meio da polícia criminalizando e matando sobretudo a juventude negra, seja pelos equipamentos de saúde precários, ou mesmo na ausência do próprio Estado, abrindo margem para que o crime organizado torne-se referência na vida dessa juventude. Há pesquisas que mostram que 40% da juventude que ingressa no ensino médio são reprovados ou se evadem da escola.
Além disso, é sempre importante lembrar o papel que os meios de comunicação exercem sobre a juventude, vendendo a imagem de que a política não presta e que todo político é corrupto. Isso é uma forma que os verdadeiros donos do poder no país encontraram para afastar a juventude da política, fazendo com que acreditem que não tem mais jeito.
Apesar disso, temos inúmeros exemplos na história que mostram como a juventude é capaz de transformar a sociedade. Gostaria de lembrar um exemplo recente e bem marcante que foram as ocupações das escolas estaduais em 2015. A “primavera estudantil” foi a uma insurreição contra as políticas de precariedade dos governos tucanos, representou um soco na desvalorização da educação pública do Estado. A juventude é potencialmente uma agente transformadora de nossa sociedade e por isso nossa luta tem que ser a promoção de mais espaços de participação política real da juventude.

Página 13. Como foi sua experiência de ingresso no professorado? O que é ser professora da rede estadual de SP hoje?
Ana Lídia. Comecei a dar aulas em um colégio particular pequeno na periferia de Guarulhos em 2011, mas considero que minha maior experiência foi como professora da rede pública estadual. Comecei como professora no Estado como contratada, o que a gente chama de categoria “O”, em 2013. Nessa época eu tinha que fazer o que milhares de professores ainda fazem: desdobrar-me em três pessoas ao mesmo tempo, para conseguir ir para três escolas diferentes e assim conseguir completar a jornada de trabalho.
Apesar de ter ingressado como professora efetiva do Estado e passar a ter acesso a alguns direitos, as condições de trabalho continuam precárias, seja pela falta de valorização das professoras e dos professores, seja pela falta de infraestrutura escolar, seja pelo assédio moral sofrido, seja pelos contantes ataques à educação.
Os desafios diários dentro da sala de aula são inúmeros. Alunos chegam às séries finais sem saber ler e escrever, não conseguem realizar as quatro operações básicas em matemática. A progressão continuada implantada por Covas trouxe consequências graves para o desenvolvimento da educação e para o professor, que precisa lidar com os mais variados problemas de aprendizagem trazidos pelos alunos desde os anos iniciais do ensino escolar, isso porque muitos educandos são aprovados automaticamente para que se “melhorem” os índices do governo. Essa situação reflete apenas números para serem publicados durante as campanhas eleitorais, e é exatamente como números que alunos são tratados nas escolas. Além da superlotação, alunos com as mais diversas realidades são jogados nas salas de aula, onde o professor precisa dar conta, sem um apoio psicológico.
Ao longo desses vinte anos em que o PSDB está governando São Paulo, o que se tem notado é o descaso com a instituição escolar, com os alunos que têm o direito à educação e com a categoria dos professores. As violências construídas pelas nossas heranças são reproduzidas todos os dias nas salas de aula, com ajuda policial. Práticas de violência reproduzidas cotidianamente nas periferias do Estado têm ganhado respaldo do governo para manter a “ordem” nas escolas estaduais paulistas. São inúmeros os relatos de ações policiais dentro das escolas.
Em 2015, os professores da rede estadual de educação passaram pela greve mais longa de nossa história. Foram 92 dias de greve que teve dentre seus motivos o acúmulo das políticas de desvalorização da educação, que simbolizam o significado de vinte anos de gestão tucana no Estado. À época, 30 mil professores perderam aulas devido às mais de 3 mil salas fechadas pelo governo, provocando o superlotamento de outras mais, onde já não cabiam alunos. A greve tinha também como objetivo a denúncia da estrutura precária das escolas paulistas e do Decreto 61.132/15 que previa o congelamento salarial dos servidores estaduais.
Essa greve a meu ver saiu vitoriosa, pois promoveu o fortalecimento do sindicato e ainda serviu de ensinamento aos estudantes que no mesmo ano se rebelaram com o projeto de reorganização escolar de Geraldo Alckmin, ocupando escolas e derrubando não apenas o projeto, mas também o à época secretário de Educação.
As dificuldades do trabalho docente e os problemas da educação se agravam depois do golpe contra a presidente Dilma. Assistimos ao governo tucano aprovando na Assembleia Legislativa o PL 920/2017, que limita os investimentos em saúde, educação e demais serviços, prejudicando toda a população paulista. Além disso, com o avanço de projetos conservadores e de direita em trâmite nas casas legislativas, como o “Escola sem Partido”, assistimos a educação retroceder no debate da promoção da igualdade de gênero e na desconstrução de preconceitos e intolerâncias.

Página 13. Luiz Marinho é o candidato do PT-SP a governador. As últimas pesquisas eleitorais apontam que há um potencial de crescimento da sua candidatura, e um bom desempenho de Suplicy na disputa ao Senado. Como avalia o quadro eleitoral?
Ana Lídia. As eleições para governador e senadores no Estado de São Paulo, mais que nunca, serão impactadas pela dinâmica nacional. O dado central da conjuntura é a violência perpetrada pelo golpe em processo. Violência política extrema com a prisão ilegal e arbitrária de Lula e a tentativa de impedir sua candidatura. E violência social extrema que se expressa na deterioração acentuada e acelerada das condições de vida do povo. O conjunto da obra vem criando uma dinâmica social nova, uma mudança por vezes silenciosa na percepção do povão sobre a situação, uma compreensão mais profunda e mais ampliada do golpe, o que gera um ambiente político mais favorável para o PT e as forças de esquerda do que aquele que vivemos nas eleições de 2016, ano em que o antipetismo prevaleceu.
As pesquisas têm captado este sentimento, com Lula liderando para presidente no Estado de São Paulo, em pleno “ninho” dos tucanos. Neste contexto, Marinho pode crescer muito e ir ao segundo turno e as chances de Suplicy ganhar a disputa ao Senado são palpáveis. Mas nada disto é automático. Ao contrário, para estar à altura dos desafios e das possibilidades, muita coisa precisa mudar no PT-SP, e rápido. Em primeiríssimo lugar é necessário levar a campanha “Lula livre, Lula inocente, Lula presidente!” às ruas com mais ousadia e ofensividade, enterrar definitivamente as articulações e movimentações em torno de um “Plano B” e nem sequer cogitar qualquer aliança com golpistas. É possível e urgente chamarmos grandes mobilizações em defesa de Lula que reúnam centenas de milhares de trabalhadoras e trabalhadores em São Paulo. Nos últimos meses já perdemos boas oportunidades de fazer isto. A hora das vacilações tem que ficar para trás. É possível avançar dialogando com o povão sobre a possibilidade de revogação das medidas golpistas e sobre a importância de termos Marinho governador e Suplicy senador para fortalecer este projeto. É possível vencer e temos obrigação de lutar pela vitória de Marinho e Suplicy, mas isto só será possível com uma campanha que empolgue e envolva o conjunto da militância petista, que está pronta para o combate. Isto envolve construir uma direção e uma coordenação de campanha mais ampla, com mulheres e homens, jovens, negras/os e LGBTs e que represente a força da pluralidade e da diversidade da classe trabalhadora.

Página 13. Vamos falar um pouco de economia? Qual a sua opinião a respeito das privatizações e desnacionalizações?
Ana Lídia. Grandes potências mundiais como EUA e China controlam o setor elétrico. A grande pergunta é: “Por quê entregar essas empresas brasileiras?” É claro que os golpistas estão de olho no dinheiro que arrecadarão com as privatizações. Se a Eletrobrás for vendida as periferias e interior terão dificuldade de acesso à energia elétrica. O programa Luz para Todos, criado por Lula, permitiu que comunidades carentes em diversas regiões do Brasil tivessem acesso à energia elétrica. Agora, no entanto, quilombolas, indígenas, favelas, trabalhadores rurais terão a conta de luz mais cara e menor investimento nesse setor. O apagão que ocorreu em março já nos mostrou isso. Mais de 70 milhões de brasileiros ficaram sem energia por horas devido a uma falha da State Grid, empresa chinesa do setor elétrico, que fez testes em horários comerciais.Privatizar é entregar a nossa soberania nacional. É fazer com que os brasileiros arquem durante décadas com contas exorbitantes, como a conta de luz que subirá 17% por 30 anos! Precisamos reestatizar as empresas que foram privatizadas, como a Vale, a CSN, a Embraer, que a Boeing quer comprar, e assegurar que Petrobras, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil continuem sendo empresas públicas. Os brasileiros reprovaram o pacote de privatização de Temer e Meirelles. Isso a Globo não mostra!

Página 13. Defina Ana Lídia em poucas palavras.
Ana Lídia. Filha da classe trabalhadora, professora, socióloga, feminista, petista e socialista.

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